sexta-feira, 3 de abril de 2009

Clarices

Quinta-feira, fomos ao teatro. A peça: Clarices. Parte de uma programação especial sobre Clarice Lispector, resolvemos ir de última hora, sem muita segurança sobre o que veríamos. E vimos o maravilhoso!

Certamente uma das melhores peças que já vi, Clarices leva a arte do teatro ao extremo da perfeição. Com três atrizes estupendas, trilha sonora perfeita, iluminação adequada, um cenário preciso e, como base de tudo, textos de Clarice Lispector, tratados com excelência. A cada frase nos arrepiávamos com as belas, simples e profundas palavras de Clarice, interpretadas com graça e muito sentimento.

Poderia discorrer mais uma lista de elogios. Mas, mais do que isso, voltei para casa extremamente feliz! Como é bom ver uma peça como essa, perfeita, profunda, simples e tocante. Como é bom saber que Clarice é genial.

Se eu Fosse Eu - Clarice Lispector

"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro."

(Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, editora Rocco, pg. 156).

Faz de conta - Clarice Lispector

“Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos (...) faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, (...) faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua (...) faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta (...)”

p.s.: Discussão interessante depois da peça: estávamos em dúvida se íamos ou não. O ingresso custou 2 reais. Se custasse 10, de certo, não iríamos...

A peça vale muito mais que 10 reais, mas não iríamos...

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