As palavras que seguem não são minhas, mas de José Saramago. Escritas no dia 15 de Abril de 1994, e publicadas no Caderno II do livro "Cadernos de Lazaronte", elas refletem um certo desconforto, um questionamento que, se antes só se revelava aos de extrema sensibilidade, com o gênio português, hoje parece cada vez mais evidente.
"Já se sabe que não somos um povo alegre (um francês aproveitador de rimas fáceis é que inventou aquela de que 'les portugais son toujours gais'), mas a tristeza de agora, a que Camões, para não ter de procurar novas palavras, talvez chamasse simplesmente 'apagada e vil', é a de quem se vê sem horizontes, de quem vai suspeitando que a prosperidade prometida foi um logro e que as aparências serão pagas bem caro num futuro que não vem longe. E as alternativas, onde estão, em que consistem? Olhando a cara fingidamente satisfeita dos europeus, julgo não serem previsíveis, tão cedo, alternativas nacionais próprias (torno a dizer: nacionais, não nacionalistas), e que da crise profunda, crise económica, mas também crise ética, em que patinhamos, é que poderão, talvez - contemo-nos com um talvez -, vir a nascer as necessárias ideias novas, capazes de retomar e integrar a parte melhor de algumas das antigas, principiando, sem prévia definição condicional de antiguidade ou modernidade, por recolocar o cidadão, um cidadão enfim lúcido e responsável, no lugar que hoje está ocupado pelo animal irracional que responde ao nome de consumidor".
É isso.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
domingo, 16 de outubro de 2011
Inconformismo
O título deste post justifica a tão brusca retomada do blog. Melhor seria dizer seu uso repentino. A questão que aqui se coloca é o inconformismo, diário para os que enxergam um pouco além do evidente, mas que em alguns momentos parece emergir brusco, imediato, atrasado já, e acaba por vir aqui deitar-se, para ver se se acalma.
Minha revolta é por ter sido, há pouco, agredido pela inacreditável "tosquidão" do programa Domingão do Faustão. Um pobre homem foi chamado ao palco para pagar terrível mico, ao apresentar, com canto e dança, uma música do Michael Jackson. Evidentemente simples, com dificuldades de se expressar em português, o desempenho do rapaz foi terrivelmente parco. Vale dizer que não se tratava de uma sátira, o indivíduo claramente se acreditava capaz de apresentar algo de interessante. Faustão não deixou de fazer suas piadas ridículas, e o bando de macaquinhos treinados da platéia não deixou de apoiar, com vivas e palmas, o desempenho medíocre.
Há, em todo esse show bizarro, uma série de questões e reflexões que parecem clamar para serem vistas. As cortinas do ridículo parecem já estar rasgadas, mofadas, descosturadas, prontas para serem queimadas e enfim deixarem se revelar os problemas latentes dessa sociedade. Mas mesmo assim, os trapos restantes parecem que, de tão fluorescentes, atraem todos os olhos, todas as atenções, enquanto tudo que está por trás segue invisível.
Trapos fétidos como Big Brother Brasil, Pânico na TV, Programa do Ratinho, Programa do Gugu, praticamente tudo que é feito no SBT, RedeTV e Gazeta, para não dizer toda a estupidez transmitida em forma de cartilha social pelas novelas da Globo, e claro, o pobre homem posto no palco para fazer papel de ridículo e entreter seus expectadores que só podem ser acéfalos.
Por que tanto incômodo? Por que tanta revolta? Especialmente eu, que posso muito bem assistir meus canais da televisão fechada ou algum filme clássico da minha coleção... Simplesmente porque a mensagem transmitida através dessas bobagens é que para o brasileiro tudo serve! Que qualquer coisa é entretenimento suficiente. Que já que não podemos com a vida, vamos rir dela, por mais sem graça que seja. "Vamos celebrar a estupidez humana"! Vamos compartilhar os vídeos mais vistos, ainda que profundamente estúpidos, vamos twittar milhões de "kkkkkkkkkkkk" como resposta de uma piada tosca de qualquer humorista de '5ª categoria'... Gargalhadas que se repetem e se multiplicam nas redes sociais e que, aposto, serão cada vez menos vistas, ouvidas e de fato sentidas, no mundo real.
Muito se diz que a solução para o Brasil está na educação. César Nunes, professor e pesquisador da Unicamp, que respeito muito, disse que basta uma geração de crianças bem educadas (no sentido de receberem boa educação), e mudamos o país, o que concordo plenamente. Mas o ponto central da mudança, para mim, está na mídia. A televisão é uma máquina extremamente mais potente e eficaz do que a educação, independente da qualidade da última. Há muito mais aparelhos de TV do que professores, e são eles (ambos, mas falo dos aparelhos) que devem começar a assumir sua responsabilidade na formação de nosso povo.
A televisão é uma concessão pública, e deve sim estar de acordo com os interesses da nação, preocupada com os objetivos estabelecidos pelos governos, eleitos democraticamente pela maioria, é bom que se diga. Ora, se todos clamam por mais educação, comecemos por extirpar da televisão brasileira o preconceito, a intolerância, a falta de educação, o desserviço à população, a ignorância, e principalmente, a visão manipulada, tendenciosa e dominadora de uma senhora chamada Rede Globo.
É fácil, muito fácil, dizer que a educação é a solução. Porque, se assim for, o grande responsável é o professor, o educador. Eu daqui, de longe, apoio, ajudo, dou esmola, sou (que ódio) amigo da escola. Mas é lá que as coisas precisam ser resolvidas. Enquanto meu aparelho de TV transmite a todos, especialmente às crianças, a mensagem de que tudo serve.
Chegará o momento em que diremos: não, não serve?
Nota: morreu essa semana Leon Cakoff, fundador da mostra internacional de cinema de São Paulo. Homem que provou, como disse uma um comentarista do Jornal da Cultura que não me recordo o nome, que não é o interesse que gera a demanda, mas ao contrário. Os filmes que Cakoff trazia para a mostra, todos diziam desinteressantes e sem público. Hoje, as salas que apresentam os filmes do evento estão sempre lotadas, e os ingressos são concorrido.
Ou seja, não gosto daquilo que não me oferecem. Se me oferecerem bananas a vida toda, amá-las-ei; e tudo que não for amarelo, não me parecerá comida. Cabe, sim, aos professores e à escola, mas principalmente à mídia (também como instrumento do governo) oferecer outras frutas.
De minha parte, estou bastante enjoado de bananas.
Minha revolta é por ter sido, há pouco, agredido pela inacreditável "tosquidão" do programa Domingão do Faustão. Um pobre homem foi chamado ao palco para pagar terrível mico, ao apresentar, com canto e dança, uma música do Michael Jackson. Evidentemente simples, com dificuldades de se expressar em português, o desempenho do rapaz foi terrivelmente parco. Vale dizer que não se tratava de uma sátira, o indivíduo claramente se acreditava capaz de apresentar algo de interessante. Faustão não deixou de fazer suas piadas ridículas, e o bando de macaquinhos treinados da platéia não deixou de apoiar, com vivas e palmas, o desempenho medíocre.
Há, em todo esse show bizarro, uma série de questões e reflexões que parecem clamar para serem vistas. As cortinas do ridículo parecem já estar rasgadas, mofadas, descosturadas, prontas para serem queimadas e enfim deixarem se revelar os problemas latentes dessa sociedade. Mas mesmo assim, os trapos restantes parecem que, de tão fluorescentes, atraem todos os olhos, todas as atenções, enquanto tudo que está por trás segue invisível.
Trapos fétidos como Big Brother Brasil, Pânico na TV, Programa do Ratinho, Programa do Gugu, praticamente tudo que é feito no SBT, RedeTV e Gazeta, para não dizer toda a estupidez transmitida em forma de cartilha social pelas novelas da Globo, e claro, o pobre homem posto no palco para fazer papel de ridículo e entreter seus expectadores que só podem ser acéfalos.
Por que tanto incômodo? Por que tanta revolta? Especialmente eu, que posso muito bem assistir meus canais da televisão fechada ou algum filme clássico da minha coleção... Simplesmente porque a mensagem transmitida através dessas bobagens é que para o brasileiro tudo serve! Que qualquer coisa é entretenimento suficiente. Que já que não podemos com a vida, vamos rir dela, por mais sem graça que seja. "Vamos celebrar a estupidez humana"! Vamos compartilhar os vídeos mais vistos, ainda que profundamente estúpidos, vamos twittar milhões de "kkkkkkkkkkkk" como resposta de uma piada tosca de qualquer humorista de '5ª categoria'... Gargalhadas que se repetem e se multiplicam nas redes sociais e que, aposto, serão cada vez menos vistas, ouvidas e de fato sentidas, no mundo real.
Muito se diz que a solução para o Brasil está na educação. César Nunes, professor e pesquisador da Unicamp, que respeito muito, disse que basta uma geração de crianças bem educadas (no sentido de receberem boa educação), e mudamos o país, o que concordo plenamente. Mas o ponto central da mudança, para mim, está na mídia. A televisão é uma máquina extremamente mais potente e eficaz do que a educação, independente da qualidade da última. Há muito mais aparelhos de TV do que professores, e são eles (ambos, mas falo dos aparelhos) que devem começar a assumir sua responsabilidade na formação de nosso povo.
A televisão é uma concessão pública, e deve sim estar de acordo com os interesses da nação, preocupada com os objetivos estabelecidos pelos governos, eleitos democraticamente pela maioria, é bom que se diga. Ora, se todos clamam por mais educação, comecemos por extirpar da televisão brasileira o preconceito, a intolerância, a falta de educação, o desserviço à população, a ignorância, e principalmente, a visão manipulada, tendenciosa e dominadora de uma senhora chamada Rede Globo.
É fácil, muito fácil, dizer que a educação é a solução. Porque, se assim for, o grande responsável é o professor, o educador. Eu daqui, de longe, apoio, ajudo, dou esmola, sou (que ódio) amigo da escola. Mas é lá que as coisas precisam ser resolvidas. Enquanto meu aparelho de TV transmite a todos, especialmente às crianças, a mensagem de que tudo serve.
Chegará o momento em que diremos: não, não serve?
Nota: morreu essa semana Leon Cakoff, fundador da mostra internacional de cinema de São Paulo. Homem que provou, como disse uma um comentarista do Jornal da Cultura que não me recordo o nome, que não é o interesse que gera a demanda, mas ao contrário. Os filmes que Cakoff trazia para a mostra, todos diziam desinteressantes e sem público. Hoje, as salas que apresentam os filmes do evento estão sempre lotadas, e os ingressos são concorrido.
Ou seja, não gosto daquilo que não me oferecem. Se me oferecerem bananas a vida toda, amá-las-ei; e tudo que não for amarelo, não me parecerá comida. Cabe, sim, aos professores e à escola, mas principalmente à mídia (também como instrumento do governo) oferecer outras frutas.
De minha parte, estou bastante enjoado de bananas.
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