Ouvi no vento algo que me recuso aceitar como verdade. Achei que meu incômodo perante parte dos companheiros de faculdade era por vezes exagerado. Mas o que ouvi é o fim.
Em uma aula do período noturno, para o pessoal do segundo ano de Educação Física, a professora iria passar um filme. Ao aparecer a primeira legenda do filme, vieram os pedidos: "coloca dublado" (!). Pedidos, repito, pois não foi apenas um. Vários alunos pediam para que o filme fosse colocado no dublado (!!). Entre o tumulto, sobe a reclamação: "é muito difícil ler e ver a imagem ao mesmo tempo" (!sic!).
A Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas é considerada uma das melhores do país, e assim o é! Mas é impossível de se acreditar que uma turma de segundo ano universitário reclame filme dublado. Talvez para facilitar as conversinhas constantes em todas as aulas desse instituto. É inconcebível que aquilo que se considera "os melhores profissionais formados no país" realmente peçam o que pediram. Ao menos tivessem vergonha na cara para ocultar a própria ignorância, num silêncio atento, se dedicando ao herculiano esforço de ver as imagens de um filme e ao mesmo tempo ler sua legenda.
Muitas pessoas têm dedicado a vida e os estudos na busca de uma Educação Física mais próxima daquilo que deve ser. Eu mesmo pretendo caminhar na busca de uma Educação que seja capaz de formar o homem completo, capaz de comandar sua vida e sua vida em sociedade. E é doloroso ver que o trabalho de tanta gente vai se indo pelo ralo devido a crianças que se esqueceram de crescer, e que reproduzem ações e pedidos que faziam na quinta série. E pior, como já disse, sem disso se envergonhar.
Falta crescimento, amadurecimento, responsabilidade. Falta seriedade naquilo que para alguns é objeto de pesquisa e fonte de mudança, mas que muitos tratam com infantil desrespeito e descuidado. Falta, da parte dos professores, exigirem o respeito que merecem. Falta merecer esse respeito.
Falta, e falta muito...
terça-feira, 28 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Diretor da Comvest atribui aprovação na UNICAMP à sorte
Um diretor da Comvest, órgão responsável pela elaboração do vestibular da Unicamp, disse, de forma explicada e clara, que o candidato depende da sorte para ser aprovado no vestibular. Em um debate realizado na Faculdade de Educação Física (debate esse importantíssimo e, parece ser consequência, com ninguém na platéia) ele deu uma série de argumentos, bastante fortes, que mostram que o sistema do vestibular que é aplicado não tem sido mais sustentável, e tem feito com que a sorte seja um dos fatores para a aprovação.
Não escreveria esse post se não fosse um importante professor da Fef. Após o tal diretor falar sobre a sorte, ele retrucou dizendo: temos que tomar cuidado com o que dizemos. Por que se tivesse um jornalista da Folha aqui, amanhã tava no jornal "diretor da Comvest atribui aprovação na UNICAMP à sorte". E finalizou com uma risadinha: Agente tem que tomar cuidado com o que torna público...
Jornalista da Folha, lá não havia. Mas havia esse blogueiro. Que isto escreve mais para que se torne público, e menos por achar que o que o diretor disse é um absurdo. A sorte é fator primordial quase que constantemente, apenas temos medo de assumir isso. Haja vista o brilhante filme de Wood Allen, "Ponto Final", e saberemos que a sorte permeia a todos nós.
Alguns mais, outros menos... Depende da sorte.
Não escreveria esse post se não fosse um importante professor da Fef. Após o tal diretor falar sobre a sorte, ele retrucou dizendo: temos que tomar cuidado com o que dizemos. Por que se tivesse um jornalista da Folha aqui, amanhã tava no jornal "diretor da Comvest atribui aprovação na UNICAMP à sorte". E finalizou com uma risadinha: Agente tem que tomar cuidado com o que torna público...
Jornalista da Folha, lá não havia. Mas havia esse blogueiro. Que isto escreve mais para que se torne público, e menos por achar que o que o diretor disse é um absurdo. A sorte é fator primordial quase que constantemente, apenas temos medo de assumir isso. Haja vista o brilhante filme de Wood Allen, "Ponto Final", e saberemos que a sorte permeia a todos nós.
Alguns mais, outros menos... Depende da sorte.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
O dom de criticar
Sempre fui uma pessoa crítica. Se não soubesse que não é assim que as coisas se dão, diria que nasci crítico, por isso a utilização (irônica) da palavra dom. Isso deve vir do meu pai, que também parece ser crítico desde sempre. Nada passa por ele sem que manifeste sua posição, que na grande maioria das vezes, é contrária a o que foi dito.
Diferente de meu pai, inclusive rateando com ele, penso que certos assuntos já não vale mais a pena criticar. Ao ver o jornal, com uma notícia sobre político corrupto, meu pai logo chia. Reclama, esbraveja, não se conforma. Um tanto irritando digo que se conforme, que é sempre assim. Tome o cuidado de não me considerar um conformista, mas há três motivos para eu reclamar quando ele reclama: primeiro, a reclamação dele não muda nada. Segundo, não gosto de ver meu pai se exaltando, mesmo que seja pouco, mesmo que seja com o político da TV. Terceiro, porque sou filho dele.
Meu tom crítico já me rendeu diversos adjetivos, como mal-humorado, velho, ranzinza, zangado, preconceituoso. Este último parecia passar junto com os outros, em tom de ironia, mas incomodou um tanto mais. Contudo, com a devida ajuda sempre necessária, percebi que era também o mais real. Não percebia que no meu valioso "olhar crítico" muitas vezes se escondeu discriminação. Não sei por quantas vezes, julgando-me crítico respeitável, deixei de perceber e de reconhecer a força e a beleza do outro. Quantas vezes meu olhar distante (como dói dizer "superior") me fez olhar para tudo com pré-conceitos, cometendo assim o erro comum de ao olhar, ver apenas o que desejo para confirmar aquilo que esperava, e não ver realmente.
Difícil perceber isso em mim, ainda pior escrever.
Diferente de meu pai, inclusive rateando com ele, penso que certos assuntos já não vale mais a pena criticar. Ao ver o jornal, com uma notícia sobre político corrupto, meu pai logo chia. Reclama, esbraveja, não se conforma. Um tanto irritando digo que se conforme, que é sempre assim. Tome o cuidado de não me considerar um conformista, mas há três motivos para eu reclamar quando ele reclama: primeiro, a reclamação dele não muda nada. Segundo, não gosto de ver meu pai se exaltando, mesmo que seja pouco, mesmo que seja com o político da TV. Terceiro, porque sou filho dele.
Meu tom crítico já me rendeu diversos adjetivos, como mal-humorado, velho, ranzinza, zangado, preconceituoso. Este último parecia passar junto com os outros, em tom de ironia, mas incomodou um tanto mais. Contudo, com a devida ajuda sempre necessária, percebi que era também o mais real. Não percebia que no meu valioso "olhar crítico" muitas vezes se escondeu discriminação. Não sei por quantas vezes, julgando-me crítico respeitável, deixei de perceber e de reconhecer a força e a beleza do outro. Quantas vezes meu olhar distante (como dói dizer "superior") me fez olhar para tudo com pré-conceitos, cometendo assim o erro comum de ao olhar, ver apenas o que desejo para confirmar aquilo que esperava, e não ver realmente.
Difícil perceber isso em mim, ainda pior escrever.
sábado, 18 de abril de 2009
Susan Boyle - Nos ensina o que já deveríamos saber
Vi pela primeira vez na unicamp, almoçando em um restaurante, onde passava o Video Show. Programa chato, como sempre, eu pouco prestava atenção. Levantei-me, um tanto apressado para a aula, mas passando em frente a TV ouvi começarem a falar de um vídeo que estava fazendo grande sucesso. Como sempre ouço comentários sobre esses vídeos, mas nunca sei do que se tratam, parei para assistir.
Estava em pé, mas precisei sentar. Uma mulher de cabelo e roupa fora de moda e que aparentemente não tinha porque subir em um palco, ainda mais diante do chato Saimon (que conhecia do American Idol's), estava lá, obviamente desacreditada por todos, e já servindo de chacota. Então, a velha e mal cuidada senhora começa a cantar... Foi ai que sentei. Uma voz linda, doce e imponente. Sentei sem pressa, querendo ouvir mais aquela voz.
Não me emocionei porque não sou dessas coisas, mas que foi bonito foi. Pena que pessoas como ela precisem aparecer para que aprendamos o que já deveríamos saber. Não devemos jamais julgar as pessoas por aquilo que elas aparentam ser. Levantar conceitos prévios a partir de nada mais do que nossas impressões, tende a levar-nos para o erro e a discriminação. Susan não se parece com as cantoras que conhecemos, nem por isso é menos cantora do que elas. Aliás, é muito mais cantora do que muita gente famosa...
(Para os que, como eu, não acompanham esse vídeos virais, o link é:
http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo)
Estava em pé, mas precisei sentar. Uma mulher de cabelo e roupa fora de moda e que aparentemente não tinha porque subir em um palco, ainda mais diante do chato Saimon (que conhecia do American Idol's), estava lá, obviamente desacreditada por todos, e já servindo de chacota. Então, a velha e mal cuidada senhora começa a cantar... Foi ai que sentei. Uma voz linda, doce e imponente. Sentei sem pressa, querendo ouvir mais aquela voz.
Não me emocionei porque não sou dessas coisas, mas que foi bonito foi. Pena que pessoas como ela precisem aparecer para que aprendamos o que já deveríamos saber. Não devemos jamais julgar as pessoas por aquilo que elas aparentam ser. Levantar conceitos prévios a partir de nada mais do que nossas impressões, tende a levar-nos para o erro e a discriminação. Susan não se parece com as cantoras que conhecemos, nem por isso é menos cantora do que elas. Aliás, é muito mais cantora do que muita gente famosa...
(Para os que, como eu, não acompanham esse vídeos virais, o link é:
http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo)
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Momento
Vinha caminhando apressado pela praça central da unicamp (ao lado do ciclo básico). Vinha de bem longe, um tanto cansado de andar, mas a passos rápidos, pois havia várias coisas por fazer, mesmo já tendo resolvido outras tantas. Os compromissos giravam na minha cabeça, os textos, os trabalhos, as futuras provas, o dinheiro, enfim, tudo passava com pressa pelo cérebro agitado.
Mas um som me interrompe. Impede-me de seguir. Paro, feito bobo, no meio do caminho. Pouco a minha frente, um grupo de cinco pessoas toca uma música. Imediatamente todas as coisas pararam de girar, e deram espaço para a doce melodia. Era coisa simples, dois tambores desgastados, um triângulo (costumeiramente irritante), um estranho instrumento a base de côcos e uma flauta de madeira. Mas que juntos, tocavam algo doce, alegre e tranquilizador.
Fingi que planeja desde antes me sentar ali por perto. Sentei e olhei para frente. Vi um dos vários caminhos que partem da praça em direção aos institutos. O caminho era acompanhado por árvores, o sol iluminava algumas das copas, o vento fazia-as dançar, e refrescava meu rosto. Fiquei ali, de repente atônito. Era como se a natureza cantasse! Uma música melódica e leve, e que me enchia da paz.
Por ali fiquei alguns minutos, meia hora no máximo. Nem sei se eram bons músicos, mas tocaram mais do que música. Tocaram a mim. Talvez exatamente por não quererem isso. A simplicidade das músicas, aprendidas ali, na hora mesmo, pareciam a vós da natureza, estonteantemente bela e despretensiosa.
Fui me distanciando, ouvindo a música baixando ao longe... Tudo aquilo que passava pela minha cabeça pareceu reconhecer-se supérfluo...
Mas um som me interrompe. Impede-me de seguir. Paro, feito bobo, no meio do caminho. Pouco a minha frente, um grupo de cinco pessoas toca uma música. Imediatamente todas as coisas pararam de girar, e deram espaço para a doce melodia. Era coisa simples, dois tambores desgastados, um triângulo (costumeiramente irritante), um estranho instrumento a base de côcos e uma flauta de madeira. Mas que juntos, tocavam algo doce, alegre e tranquilizador.
Fingi que planeja desde antes me sentar ali por perto. Sentei e olhei para frente. Vi um dos vários caminhos que partem da praça em direção aos institutos. O caminho era acompanhado por árvores, o sol iluminava algumas das copas, o vento fazia-as dançar, e refrescava meu rosto. Fiquei ali, de repente atônito. Era como se a natureza cantasse! Uma música melódica e leve, e que me enchia da paz.
Por ali fiquei alguns minutos, meia hora no máximo. Nem sei se eram bons músicos, mas tocaram mais do que música. Tocaram a mim. Talvez exatamente por não quererem isso. A simplicidade das músicas, aprendidas ali, na hora mesmo, pareciam a vós da natureza, estonteantemente bela e despretensiosa.
Fui me distanciando, ouvindo a música baixando ao longe... Tudo aquilo que passava pela minha cabeça pareceu reconhecer-se supérfluo...
domingo, 12 de abril de 2009
Páscoa
Fui ao supermercado ontem. Ao passar por aquele corredor de ovos de páscoa me surpreendi: ele estava quase vazio! De ovos, não de gente. Pois pessoas procurando por ovos, havia várias, o que faltava era ovo mesmo. Tudo bem que ontem já era véspera de Páscoa, mas ver as "prateleiras" quase vazias!? Levando em consideração os preços dos ovos!?
Passei por uma menininha que mal sabia falar, mas cuidava bem de pedir à sua mãe um ovo de "pácoa". Tentando parecer firme, a mãe dizia: Não minha filha, você já abriu três (!!). Não vou dizer que antes só abríamos os ovos no domingo, nem, saudosisticamente dizer, que antes os ovos tinham um significado. Por que talvez, de fato, só tenham tido na cabeça de quem os inventou e, talvez ainda, o significado que o tal inventor queria era vender chocolate mesmo.
Aliás, estacionou pertinho de minha casa, ontem, um caminhão que vendia chocolate. Um carro de som passava anunciando: "um caminhão recheado de chocolate está estacionado ao lado da torre do castelo, e está com uma super promoção - 50 barras (!!) por 10 reais (!!!). E para não voltar com a carga, você ainda leva mais 20 barras (!!!!)". Nem me preocupei em ir olhar. De certo carga roubada, tanto que minutos depois apareceu um carro de polícia, e mais alguns depois o caminhão não estava mais por aqui.
Mas enfim, não há gosto de chocolate igual ao do ovo de Páscoa! O formato, o recheio, os bombos sortidos, a exuberância dos pacotes, a enorme quantidade à disposição. Uma data mágica para o alimento mágico! Por isso, boa Páscoa, e muitos ovos para você!!!
(em tempo, aquele anjinho que aparece em nosso ombro veio me dizer que o mais importante dessa data não são os chocolates, mas sim a mensagem de paz, entrega e renovação. Discuto com ele: quem dera fosse meu caro, quem dera fosse...).
Passei por uma menininha que mal sabia falar, mas cuidava bem de pedir à sua mãe um ovo de "pácoa". Tentando parecer firme, a mãe dizia: Não minha filha, você já abriu três (!!). Não vou dizer que antes só abríamos os ovos no domingo, nem, saudosisticamente dizer, que antes os ovos tinham um significado. Por que talvez, de fato, só tenham tido na cabeça de quem os inventou e, talvez ainda, o significado que o tal inventor queria era vender chocolate mesmo.
Aliás, estacionou pertinho de minha casa, ontem, um caminhão que vendia chocolate. Um carro de som passava anunciando: "um caminhão recheado de chocolate está estacionado ao lado da torre do castelo, e está com uma super promoção - 50 barras (!!) por 10 reais (!!!). E para não voltar com a carga, você ainda leva mais 20 barras (!!!!)". Nem me preocupei em ir olhar. De certo carga roubada, tanto que minutos depois apareceu um carro de polícia, e mais alguns depois o caminhão não estava mais por aqui.
Mas enfim, não há gosto de chocolate igual ao do ovo de Páscoa! O formato, o recheio, os bombos sortidos, a exuberância dos pacotes, a enorme quantidade à disposição. Uma data mágica para o alimento mágico! Por isso, boa Páscoa, e muitos ovos para você!!!
(em tempo, aquele anjinho que aparece em nosso ombro veio me dizer que o mais importante dessa data não são os chocolates, mas sim a mensagem de paz, entrega e renovação. Discuto com ele: quem dera fosse meu caro, quem dera fosse...).
sábado, 11 de abril de 2009
"As paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas. [...] Não é algo terrível transformar sensações regulares e necessárias em fonte de miséria interior, e assim pretender tornar a miséria interior, em cada pessoa, algo regular e necessário?"
Nietzche
Algumas frases dizem tanto, que a melhor forma de falar sobre elas, é simplesmente reproduzi-las.
Nietzche
Algumas frases dizem tanto, que a melhor forma de falar sobre elas, é simplesmente reproduzi-las.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Clarices
Quinta-feira, fomos ao teatro. A peça: Clarices. Parte de uma programação especial sobre Clarice Lispector, resolvemos ir de última hora, sem muita segurança sobre o que veríamos. E vimos o maravilhoso!
Certamente uma das melhores peças que já vi, Clarices leva a arte do teatro ao extremo da perfeição. Com três atrizes estupendas, trilha sonora perfeita, iluminação adequada, um cenário preciso e, como base de tudo, textos de Clarice Lispector, tratados com excelência. A cada frase nos arrepiávamos com as belas, simples e profundas palavras de Clarice, interpretadas com graça e muito sentimento.
Poderia discorrer mais uma lista de elogios. Mas, mais do que isso, voltei para casa extremamente feliz! Como é bom ver uma peça como essa, perfeita, profunda, simples e tocante. Como é bom saber que Clarice é genial.
Se eu Fosse Eu - Clarice Lispector
"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro."
(Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, editora Rocco, pg. 156).
Faz de conta - Clarice Lispector
“Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos (...) faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, (...) faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua (...) faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta (...)”
p.s.: Discussão interessante depois da peça: estávamos em dúvida se íamos ou não. O ingresso custou 2 reais. Se custasse 10, de certo, não iríamos...
A peça vale muito mais que 10 reais, mas não iríamos...
Certamente uma das melhores peças que já vi, Clarices leva a arte do teatro ao extremo da perfeição. Com três atrizes estupendas, trilha sonora perfeita, iluminação adequada, um cenário preciso e, como base de tudo, textos de Clarice Lispector, tratados com excelência. A cada frase nos arrepiávamos com as belas, simples e profundas palavras de Clarice, interpretadas com graça e muito sentimento.
Poderia discorrer mais uma lista de elogios. Mas, mais do que isso, voltei para casa extremamente feliz! Como é bom ver uma peça como essa, perfeita, profunda, simples e tocante. Como é bom saber que Clarice é genial.
Se eu Fosse Eu - Clarice Lispector
"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro."
(Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, editora Rocco, pg. 156).
Faz de conta - Clarice Lispector
“Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos (...) faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, (...) faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua (...) faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta (...)”
p.s.: Discussão interessante depois da peça: estávamos em dúvida se íamos ou não. O ingresso custou 2 reais. Se custasse 10, de certo, não iríamos...
A peça vale muito mais que 10 reais, mas não iríamos...
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