domingo, 29 de maio de 2011

Os belos opostos

Estive no Rio, no segundo fim de semana deste mês de Maio. Dentre as várias coisas muito legais, há dois momentos que quero compartilhar, desde que de lá voltei.

Calhou de, nesse tal fim de semana, estar acontecendo a FLIST - Festa Literária de Santa Tereza. O morro de Santa Tereza é belíssimo. Para chegar lá se pega o tradicional bondinho, que passa por cima dos arcos da Lapa. O morro é cheio de casas antigas e muito bem conservadas, e a vista é exuberante. O FLIST acontecia em alguns locais, e também nos restaurantes da região. O principal centro cultural, com diversas apresentações, era A Casa das Ruínas, um casarão antigo, realmente ruindo, mas onde foi construída uma estrutura metálica, que te leva com segurança até o topo da construção, e de lá, a vista mais linda que já tive. A cidade maravilhosa cercada de mar! Além disso, é possível ver vários pontos turísticos da cidade... Incrível.

Pois bem, ali vi a apresentação de um grupo-coral de moradores do Morro de Santa Marta, conhecida favela da cidade. Pessoas simples, a maioria insegura, se apresentando em um pequeno palco, que mais parecia uma gruta. A professora do grupo, e mais outro rapaz, acompanhavam apenas com um violão, uma das apresentações mais animadas, belas e sinceras que já vi. Aquelas pessoas comuns, sentiam na pele as letras daquelas músicas que cantavam. E cantavam com vontade, carinho, prazer e, também é sim necessário, muita afinação. Eu, como toda a platéia gritou no final, queria ouvir mais músicas, queria passar muito tempo ouvindo-os cantar. Saí do pequeno e singelo, mas muito bonito teatro, com um sorriso no rosto.

Mais um passeio pela FLIST, um lanche maravilhoso, e bondinho (eu pendurado do lado de fora!) para voltar para o centro. Dalí, pertinho até o monumental Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O programa? Ópera, Lucia de Lamemore! Já sabendo que não poderia entrar de shorts, como havia tentado antes, trajava minha calça jeans e camiseta. Mas já do lado de fora, me senti um pouco inadequado, vendo homens de terno e mulheres de vestido longo...

Entrei. Fiquem, certamente, mais de 30 minutos de boca aberta, olhando para a grandiosidade do salão de entrada, e para todos os mínimos e perfeitos detalhes. As três cores de mármore, branco, verde e vermelho, adornados por detalhes em dourado, me deixara em êxtase. Admirei tanto aquele lugar, por sua beleza e história, que senti vontade de usar black tie. Não que eu estivesse me sentindo inadequado perante as outras pessoas, já me importei, mas não me importo mais com isso. Mas senti sincera vontade de me apresentar elegante para aquele lugar que merece imenso respeito.

Veio a ópera, que nunca tinha visto. Tudo impecável! Cantores fantásticos, uma enorme orquestra de acompanhamento, um palco super interessante e enorme, letras lindas numa história romântica e dramática (muito parecida com Romeu e Julieta, vale dizer), sem falar de toda a beleza da sala de espetáculos, e o suntuoso lustre localizado ao centro.

Saí de lá abismado pela possibilidade de assistir a duas apresentações tão diferentes, mas principalmente por viver momentos tão opostos, na "forma", mas tão semelhantes no significado: ambas foram apresentações de pessoas sentindo, vivendo, e se comunicando através da voz, da música. Ambas profundamente belas, uma pela simplicidade e outra pela grandiosidade. Ambas muito importantes, muito valiosas, por mais que diametralmente opostas. Mas o mais importante: ambas, independente de suas diferenças, e talvez graças às suas semelhanças, me fizeram o coração sorrir.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Blitz da Educação: a bobagem nacional

Já achava o projeto JN no Ar uma tremenda bobagem. No último mês antes das eleições, o Jornal Nacional resolveu que iria visitar 30 cidades do país, para conhecer suas situações, em 30 dias. Para isso gastou fortunas com um jatinho e o imenso trabalho de locomover uma equipe de jornalismo, e sua aparelhagem, para algum lugar qualquer. O pobre repórter ficava sabendo na hora do jornal para onde iria, e no dia seguinte tinha que apresentar a reportagem, já pronto para embarcar para outra localidade qualquer. Porque fazer desse jeito, e não com o simples auxílio de emissoras locais, que poderiam fazer uma análise muito mais aprofundada, com um gasto muito menor, não se sabe. Minha opinião: para mostrar que o JN pode.

O projeto fez sucesso (assim como Big Brother faz sucesso) e foi bolado o JN no Ar, Blitz Educação. A proposta agora era visitar uma cidade em cada região do país, e lá visitar a melhor e a pior escola da cidade segundo o IDEB, comparando as duas situações, e buscando as causas. Ainda que, para mim, continuasse sendo apenas um exercício de ostentação, parecia minimamente interessante. Até que, no primeiro dia do projeto, o repórter chama o especialista que os acompanharia durante as viagens, contribuindo para a análise das causas que levaram as tais escolas a serem as piores e as melhores: Gustavo Ioschpe. Para quem não o conhece, basta dizer: assina a coluna de educação da Veja (!).

O número de bobagens proclamadas por esse especialista em educação, ditas tanto nesse Projeto JN no Ar, quanto em sua coluna permanentemente ignorante, é inacreditável. Visitando uma das piores escolas de uma das cidades sorteadas para receber o jatinho da Globo, cujos professores estavam em greve, e que apresentava índice do IDEB de 1,4, se não me engano, Ioschpe se apressou em dizer: o problema dessa escola é muito claro, é a falta de consideração dos professores, que abandonaram seus alunos, que abandonaram a escola, e que estão sempre em greve (não foram essas as palavras, mas foi essa a ideia). Nas imagens, uma estrutura extremamente precária. Como a própria reportagem destacou, a escola fica em um bairro dominado pelo crime, e totalmente sem segurança. Soma-se a isso, a certamente nenhuma valorização do professor, e o zero de apoio dado quanto a materiais, transporte, merenda e etc. E a culpa do caos de quem é? Para o gênio Ioschpe, é do professor...

Aposto que o especialista suspirou de alívio ao montar no jatinho e partir de volta para sua certamente agradável vida de acadêmico, classe econômica B, ou talvez A, agora que convidado pelo Jornal Nacional. Santa hipocrisia.

sábado, 21 de maio de 2011

Sobre a Educação

Não há nada para se contestar no discurso da professora Amanda Gurgel (caso ainda não tenha visto o que todo mundo já viu, segue o link http://www.youtube.com/watch?v=7iJ0NQziMrc). Assisti mais de uma vez, tentando olhar "do outro lado", mas não encontrei nenhuma brecha, nenhum ponto a ser questionado. Acho que a razão principal para isso é a colocação feita pela professora, que penso ser a melhor parte da fala, questionando se realmente estão colocando ela na sala de aula, com um giz e uma lousa, esperando que ela salve o Brasil.

A educação sempre foi encarada como panacéia para a resolução de todos os problemas. Fala-se, de forma irritantemente insistente, que o único meio de melhorar a sociedade é através da educação. Todos tem certeza disso, e reforçam esse discurso. Horas, se é assim tão claro, porque não se tomam atitudes para melhorar estrutura tão fundamental.

Lí na Carta Capital algo muito interessante. O escritor da reportagem dizia que muito se fala sobre a profundidade e a complexidade dos problemas da educação, com a única intenção de fazer parecer que realmente é necessário muito tempo para realizar mudanças efetivas, e que tal processo deve ser comandado pelos estudados e conhecedores de tão indecifrável mistério, cabendo à população, como diz Amanda, ter paciência. Acredito que a professora mostra muito bem que os problemas não são apenas muito mais simples do que se pinta, mas também muito práticos, como o completamente inaceitável salário de apenas três dígitos.

O discurso de Amanda é simples, coeso, claro e sem exageros. Não pede auxílio ou piedade, nem se envergonha se assumir-se incapaz de educar, afinal, todo bom materialista sabe, há de haver condições materiais, efetivas para que qualquer processo histórico ocorra, a educação não é diferente disso. E em outro momento muito bom, entrega aos deputados, à secretária da educação, aos acadêmicos (sim, também eu) aquilo que lhes pertence: o constrangimento pela situação da educação no Brasil. A mudança passa sim pelo professor em sala de aula, pelas decisões de um diretor, mas modificações amplas, profundas, têm a ver com vontade política, ações políticas. E que não se leia governo quando escrevo política. Somos todos responsáveis pela situação da educação no Brasil. É por isso que não entendo a euforia em torno do vídeo, no sentido de "finalmente alguém para dizer aos políticos algumas verdades". Ora meu caro, as verdades ditas, foram ditas também para nós.

Vale reproduzir uma breve história contada pela professora Heloisa Hofling: conversando com a moça que trabalha na casa dela, foi questionada: nossa, a carne está ficando tão cara, não para de subir. Será que é culpa da Dilma? Ao que a professora respondeu: antes fosse. Antes a triste situação RE-revelada (afinal, todos nós sabíamos de tudo que ela fala) fosse algo a se dizer aos políticos, a um pequeno grupo, responsáveis pela baderna. Ouvir o discurso e apoiá-lo, apenas, é o que certamente fizeram os políticos sentados à mesa dessa audiência pública... Ouvi-lo, apoiá-lo, e seguir fazendo as mesmas coisas é, infelizmente, o que fazemos todos nós.