As palavras que seguem não são minhas, mas de José Saramago. Escritas no dia 15 de Abril de 1994, e publicadas no Caderno II do livro "Cadernos de Lazaronte", elas refletem um certo desconforto, um questionamento que, se antes só se revelava aos de extrema sensibilidade, com o gênio português, hoje parece cada vez mais evidente.
"Já se sabe que não somos um povo alegre (um francês aproveitador de rimas fáceis é que inventou aquela de que 'les portugais son toujours gais'), mas a tristeza de agora, a que Camões, para não ter de procurar novas palavras, talvez chamasse simplesmente 'apagada e vil', é a de quem se vê sem horizontes, de quem vai suspeitando que a prosperidade prometida foi um logro e que as aparências serão pagas bem caro num futuro que não vem longe. E as alternativas, onde estão, em que consistem? Olhando a cara fingidamente satisfeita dos europeus, julgo não serem previsíveis, tão cedo, alternativas nacionais próprias (torno a dizer: nacionais, não nacionalistas), e que da crise profunda, crise económica, mas também crise ética, em que patinhamos, é que poderão, talvez - contemo-nos com um talvez -, vir a nascer as necessárias ideias novas, capazes de retomar e integrar a parte melhor de algumas das antigas, principiando, sem prévia definição condicional de antiguidade ou modernidade, por recolocar o cidadão, um cidadão enfim lúcido e responsável, no lugar que hoje está ocupado pelo animal irracional que responde ao nome de consumidor".
É isso.
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