Não sou bom de memória. Especialmente sobre coisas minhas do passado. Mas uma coisa que lembro bem é quando, rodando por alguma livraria, lá com meus 14 anos, via algum livro de José Saramago. Querendo me mostrar culto, sempre dizia aos amigos: "Nossa, Saramago! Ele é considerado um dos autores mais difíceis de se ler". Essa informação não era inventada, tinha ouvido-a no jornal, no tempo em que Saramago tomou o noticiário por ter ganhado o Nobel de Literatura.
Eis que, seis anos depois, e sem me lembrar do que contei acima, fui incentivado a ler Ensaio Sobre a Cegueira. Adorei a história, sua simbologia e importância. E me apaixonei pelo autor. Gênio da prosa poética, conta suas histórias com uma fluidez inigualável, e mergulha em reflexões profundas e belas, sem abrir mão da simplicidade sempre evidente (humana) em suas histórias.
Trechos não mostram bem o que é ler Saramago, mas como são tudo o que posso aqui reproduzir, espero que sirvam de petiscos. Todos são do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo:
“Jesus acordou, mas agora a valer, que antes mal abrira os olhos quando sua mãe o enfaixara para a viagem, e pediu alimento com a sua voz de choro, única que ainda tem. Um dia, como qualquer de nós, outras vozes virá a aprender, graças às quais saberá exprimir outras fomes e experimentar outras lágrimas”
“Certos momentos há da vida que deviam ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados, por exemplo, neste evangelho, ou em pintura, ou modernamente em foto, cine e vídeo, o que interessava mesmo era que o próprio que os viveu ou tinha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros, como seria, neste dia de hoje, irmos daqui até Jerusalém para vermos, com os nossos olhos visto, este rapazito, Jesus filho de José, enroladinho na curta manta de pobre, a olhar as casas de Jerusalém e a dar graças ao Senhor por não ter sido ainda desta vez que perdeu a alma”.
“(...) Roma, regida, como sabemos, por falsos deuses e falsos homens, em primeiro lugar, porque tais deuses de facto não existem, e em segundo lugar porque, tendo, apesar de tudo, alguma existência enquanto alvos de um culto sem efectivo objecto, é a própria vanidade do culto que demonstrará a falsidade dos homens”.
Genial!
Nenhum comentário:
Postar um comentário