Há uma lei sendo discutida no país. A Lei Rouanet de incentivo a cultura propõe, entre outras coisas, a criação do Vale-Cultura. Segundo o Ministro da área, Juca Ferreira o vale seria "muito semelhante ao vale-refeição. Só que em vez de alimentar o estômago vai alimentar o espírito e gerar benefício para área cultural". Esse vale seria no valor de R$ 50, sendo pago um tanto pela empresa, outro pelo governo, e outro pelo empregado. A proposta está sob consulta pública no site www.cultura. gov.br/reformada leirouanet.
Não participei da consulta. Não sei o que acho. A princípio a ideia é interessante, 50 reais garante certo acesso, ao menos para uma peça de teatro, duas entradas de cinema, ou um best-seller meia boca todo mês. A questão de como esse dinheiro seria gasto pela população (será que ela teria discernimento sobre o que ver, ler e ouvir?) fica até em segundo plano diante da questão: será que ela quer esse vale?
50 reais que obrigatoriamente devem ser investidos em cultura é, além de um assistencialismo ao extremo, bem ao moldes do que Stalin e Lênin seriam capazes de fazer, criar uma vale-cultura é exigir que o povo seja o que não é. Antes de alimentar qualquer espírito a grande massa precisa alimentar o corpo, e em seguida precisa se tornar consciente das possibilidades que podem se abrir através do cinema, teatro ou da literatura para então, emancipado, conhecedor de sua vontade pelo "cultural", reivindicar e criar seus acesso aos eventos dessa ordem.
Imposto de cima para baixo, esse vale diversão parece não apenas dizer ao povo com o que ele deve se divertir ou não, como também relembra a política do pão e circo, renomeados de Bolsa-Família e Vale-Cultura. O homem devia ser capaz de, a partir de seu trabalho, sustentar de forma adequada sua família, e ter acesso a diversas formas de cultura, uma vez que é isso que o identifica como ser pensante, curioso e reflexivo. E isso é alcançado de forma muito mais plena quando parte do indivíduo do que quando é feito através de políticas paternalistas, que são a pior forma de política que existe. O descaso de um governo ao menos gera certo inconformismo, o assistencialismo cria uma massa que aceita a ração dura e sem gosto que lhe é dada, e ainda aprende a respeitar o dono, mantendo a falsa impressão de que a ascensão social está logo ali.
Mas, uma família pobre de São Paulo, pode pegar esse dinheiro e numa sexta a noite ir ao Centro Cultural Fiesp e assistir a um espetáculo de alta qualidade. Será que não é um começo?
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