
Pensei em chamá-la de rainha da música brasileira, mas certamente ser par romântico de Roberto Carlos jamais foi uma de suas vontades. Pensei em chamá-la de dama da música brasileira, mas é bem verdade que ela não tem muito de dama... Pensei outros nomes, outras formas de classificá-la, mas felizmente não encontrei, porque Elza Soares é daquele tipo de gente que não cabe em classificações.
Conhecia muito pouco sobre a cantora. Conhecia a voz potente e rouca, a feição bizarra, no mínimo, e sabia também que meu pai não gostava dela pois teria sido a responsável por Garrincha, o gênio das pernas tortas, não ter sido ainda maior do que foi.
Arrisquei-me a ir vê-la, em show gratuito, no belo auditório do BNDES, em pleno centro do Rio de Janeiro. Tinha ouvido apenas duas músicas dela, Meu Guri, de Chico Buarque, e Ave Maria do Morro, de Herivelto Martins. As duas estavam no programa da apresentação, e por isso fui. Esperando pelo início, olhei o relógio e pensei "seria bacana se começasse no horário". Dois minutos depois, às 19h em ponto, os músicos entraram. Três carsa para quem eu não daria nada. Sentaram, dois no violão e o outro na percussão, e tocaram uma das melodias mais lindas que já vi. Fantástico.
Ao fim do que achei que era a abertura, os três olham para o lado, e eu que estava na segunda fila, percebi certo frisson. O mais velho dos músicos, maestro do trio, começou então a tocar outra música, que certamente não estava planejada. Novamente belíssima, mas já estava pensando comigo "a estrelinha da Elza deve estar atrasada".
Vejam que rude preconceito. Mas não me xinguem, pois fui suficientemente repreendido quando, ao fim da segunda música, Elza entre no palco de cadeira de rodas. Com a ajuda de dois rapazes, é colocada numa cadeira, no centro do palco. Com dificuldade, explica que tinha torcido o tornozelo, há alguns dias, e que o ciático acabara de travar.
Ainda que fosse difícil, devido ao rosto plastificado de Elza, percebia-se dor e sofrimento. Mesmo assim começou, com Meu Guri, e daí em diante, não vale a pena continuar escrevendo... O que vivi, é inexplicável. O sentimento colocado em cada palavra, a interpretação magistral, os contos e casos extremamente engraçados, e os triste também, a voz rouca, poderosa, que enchia o enorme auditório, mesmo quando ela tirava o microfone da frente da boca. Cantou músicas lindas, contou histórias maravilhosas, e só parou de cantar depois que a organizou mandou acabar o show, pois já eram mais de 21 horas.
Fantástica, simples, poderosa, incomparável, Elza Soares conquistou admirador sincero.
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