quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um filme apenas


Sou fã de animações, confesso. Se eu tivesse uma lista dos dez melhores filmes que já vi, três deles seriam animações: Ratatuille, Toy Story 3, e Wall-E (perto do topo da lista talvez). Claro que gosto porque me divirto, não lembro de ter rido mais na minha vida do que no dia em que vi A Era de Gelo no cinema. Mas há algo mais. Talvez a simplicidade de sentimentos, as situações fantásticas tornadas reais, o encantamento sincero com o bem, sem com isso simplificar a maldade. Não sei bem ao certo, sei apenas que as animações me tocam.
Está no cinema o filme Enrolados, 50º filme de animação da Disney. A princípio não dei muita bola, a história da Rapunzel parecia suficientemente recontada. Mas li boas críticas o que, somado a marca Disney, me levou até o cinema ontem.
Curioso o processo que nos leva a gostar ou não de um filme... Sou afeito das premiações e listas, mas não deixo de reconhecer que a importância de um filme pode ser, e talvez deva ser, medido com aparelhos completamente diferentes, conforme quem o assiste.
É fato que há fatos (Fim dos Tempos, de M. Night Shayamalan, é terrível, e isso é fato), mas há muitas coisas que podem influenciar a experiência de ver um filme. Enrolados, de Byron Howard e Nathan Greno, tinha tudo para passar desapercebido. Mas acontece que o dia, e seus percalços, me que na verdade me levaram até o cinema, tornaram esse filme uma experiência memorável.
Fantástico no que se refere aos atributos técnicos, Enrolados da poderes mágicos às longas madeixas de Rapunzel, o que se torna o motivo da bruxa má manter a princesa enclausurada na torre. Já adolescente, a vontade de ver um determinado evento anual, somado claro ao encontro com o príncipe encantado, leva Rapunzel a fugir. Durante o tempo fora da torre, alguma aventura, muita música e, novamente claro, e descobrimento do verdadeiro amor.
Se ao ser resumido o filme soa totalmente clichê, a produção ganha enormes méritos exatamente no sentido contrário. Sem querer transformar esse post numa crítica de cinema, Enrolados acerta ao demonstrar a dúvida constante de uma jovem que teme desrespeitar sua madrasta/mãe, e que constantemente se sente confusa se deve realmente buscar seu sonho, ou se deve permanecer na segurança de sua casa.
Para que o post não se alongue (mais), parto direto ao ponto: não seríamos todos, Rapunzel? Em uma das belas canções do filme, a menina se diverte ao fazer o que sempre faz dentro de sua torre, ela canta, dança, lê, faz faxina e até estuda astrologia através da observação das estrelas. A vontade de sair está presente, mas até o momento da história, não a tinha feito tentar escapar. Na verdade, para a princesa, é difícil pedir à mãe para sair.
De forma novamente acertada, a bruxa má não é simplesmente louca. É bem verdade que protege Rapunzel apenas para ter os benefícios de seus cabelos, mas os argumentos que usa poderiam estar na boca de muitas pessoas. Mais até do que isso, sua música parece ser algo dito pelas divindades humanas, que insistem em nos dizer para sermos respeitosos, educados e, males dos males, feliz com aquilo que temos. Esta Rapunzel, ainda que depois de 18 anos, deixa aflorar seu sonho, e parte em busca dele. Mas quantos de nós não deixamos de olhar pela janela? Talvez tenhamos olhado um dia, talvez tenhamos visto algo que queríamos, mas o conforto e comodidade da torre, somados aos discursos sobre o quanto o mundo é cruel, acabaram por nos manter em nossas torres.
Última, e significativa, consideração sobre o filme (ainda que muitas outras não parem de surgir): ainda que desejasse, foi preciso que o príncipe invadisse, sem querer, a torre de Rapunzel para que ela enfim tomasse coragem para partir em sua aventura. É incrível como é precisamente na relação com o outro, que temos novas chances de olhar para a janela, descobrir novas coisas lá fora e, quem sabe, ter a chance de sair, tocar a grama com o mesmo amor que Rapunzel a toca pela primeira vez... As vezes da receio, nos sentimos inseguros, mas defendo que, sem irresponsabilidade, ignoremos os ditames dessas divindades que nos querem tão bem e tão seguros, para ir conhecer esse mundo do lado de fora da torre. Tenho a alegria de ter recebido uma visita, que me ajudou a ter coragem para explorar os caminhos além da torre, e sou muito grato por isso.
Mas de certo, a vida é mais complicada que os desenhos, e sair da torre é muito mais um processo, longo e difícil, do que um divertido rapel por longas madeixas loiras. Ainda assim, esse simples desenho animado me permitiu refletir, e principalmente, sentir tudo isso. Agora, não me perguntem se o filme é bom, não seria capaz de dizer.

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